FALAR OU NÃO DE MORTE COM UMA CRIANÇA?

Desde pequenos somos afastados da ideia de perder alguém. Culturalmente fazemos isto com as crianças desde muito cedo. Quando aquele peixinho morre e é imediatamente substituído por outro parecido e se possível sem que ela se dê conta que seu animalzinho de estimação não está mais ali. Esta tentativa de proteger a criança é embasada na melhor das intenções, não queremos vê-la sofrer. Certo?

 Porém ao mesmo tempo que fazemos isto não permitimos que a criança conscientize da perda e a elabore de maneira saudável, e sim ao contrário, ela trataacaf21_c959bb554f9e4619916660880db99e52rá de maneira extremamente traumática e frustrante as suas futuras perdas. Perdemos muitas oportunidades de conversar sobre a morte com as crianças. Um momento que deveria ser muito valorizado para trabalhar o tema é o momento em que elas perguntam a respeito. Quando nos deparamos com um passarinho morto na garagem, é um corpo inanimado e elas questionam a respeito.

 Os adultos não respondem aos questionamentos por não julgarem que as crianças são suficientemente capazes compreender, com o intuito de protege-la ou mesmo por se julgar inapto a tratar do tema. Perde-se a oportunidade e minimiza-se o significado que a morte pode ter como força ativa no desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança.

A teoria do Apego.

A teoria do apego nos ajuda a entender a tendência do ser humano de estabelecer fortes laços afetivos com outros, assim como compreender a forte reação emocional que ocorre quando estes laços são ameaçados ou rompidos. Assim podemos entender o impacto da perda sobre uma pessoa e o comportamento humano decorrente desse fato.

 O conceito de Apego diz respeito a qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado e considerado mais apto a lidar com o mundo. No caso das crianças esta relação é imediatamente estabelecida com os pais e é a eles que elas recorrem para sanar suas dúvidas.

 Este apego pode ser seguro onde o indivíduo se sente confiante de que seus pais estarão disponíveis oferecendo respostas e ajuda caso se depare com alguma situação ameaçadora. Este fato o encoraja a explorar o mundo. O apego pode ser ansioso e ainda evitativo onde a criança não tem nenhuma confiança de que receberá ajuda por parte dos pais quando procura respostas para seus questionamentos. Sente a rejeição como certa e tende a se tornar autossuficiente emocionalmente. Não faz qualquer questionamento, apesar de tê-los.

 Processo de ‘Escultura’ do cérebro.
A arquitetura cerebral geral é geneticamente determinada, mas não há informação sobre como será as interconexões. A forma final do cérebro e seus padrões de conexão serão esculpidos pelas experiências.

 Ao final do segundo trimestre de gestação a maioria do nosso sistema nervoso já está formado. O excesso de sinapses aumenta o repertório de comportamentos que a criança e o adolescente podem adotar. Esta condição se presta à aquisição de novas informações e habilidades sociais. O cérebro se molda ativamente de acordo com as demandas do meio. A partir de certo estágacaf21_f30610cf16ac4816a4c2fb7f51a72126io do desenvolvimento as conexões redundantes são eliminadas para aumentar o desempenho das habilidades adquiridas.

O desenvolvimento cerebral mediante o estresse é um processo de adaptação ambiental baseado em algumas premissas, a ativação do sistema de resposta ao estresse (a exposição precoce a eventos estressantes ativa o sistema de resposta ao estresse e altera a organização molecular para modificar sua sensibilidade). Isso afeta a mielinização, morfologia neuronal, neurogênese e sinaptgênese e pode ser causada pela exposição precoce do sistema nervoso em desenvolvimento aos hormônios relacionados a resposta ao estresse.

 Há consequências duradouras. Uma delas é aumento da tolerância à irritabilidade elétrica dentro dos circuitos do sistema límbico (relacionado a emoção, reduzindo o limiar convulsivo e modulação das reações emocionais). Há aumento do estímulo para a liberação de cortisona mediante a sensação de estresse.  Há redução das consequências neuropsiquiátricas e vulnerabilidades como depressão, transtorno de personalidade, transtorno dissociativo, uso nocivo de substancias psicoativas, distúrbios de aprendizagem para algumas tarefas.

 Como trabalhar o luto infantil?Como ajudar a criança a elaborar suas perdas?

 Primeiramente a comunicação deve ser aberta e segura dentro da família. Não é necessário chamar a criança para conversar a respeito, mas sim garantir que quando ela quiser falar ou perguntar algo concernente à pessoa querida que faleceu ela tenha alguém da confiança dela, uma figura de apego, para responder suas dúvidas, alguém que tenha disponibilidade para ouvir e assegure que ela terá o tempo que for necessário para elaborar o seu luto.

 Caso os adultos se encontrem fragilizados e não tenham condições de dar suporte à criança se faz necessário apoio psicológico profissional. O psicólogo através de testes com jogos vai diagnosticar a tolerância à frustração, adequação à realidade e a capacidade simbólica. A criança nem sempre expressa verbalmente suas angústias. Portanto é necessário sempre e em todo tempo orientar as crianças de forma verdadeira e sincera pois são capazes de compreender e trabalhar bem seu luto desde que seguras e bem apoiadas.

Bibliografia

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WORDEN, J. W. Terapia do Luto — Um manual para o profissional de saúde mental. 2.ª ed.
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